domingo, 11 de janeiro de 2009

Pecador, um conto de Wilson Costa

Primeiro havia o nada. E então surgiu, como música. De repente, havia o universo. Da poeira cósmica surgiram os planetas, asteróides, luas, estrelas, supernovas, galáxias, anãs e gigantes, e sóis e nove planetas se agruparam solitários numa dança metódica e sem sentido ao redor de uma estrela amarela e aconchegante.
Ó Pecador, aonde vai se esconder?
A lua cobre o sol e homens em cima de pirâmides falam o que querem porque podem, vestidos em pele de bicho e pintados em sangue humano, máscaras de cerâmica, penugens e facões, desentranham homem e bezerro e oferecem o coração ao garoto retardado com rubis no pescoço.
O planeta gira.
Estamos entrando na era de Aquário.
Um símbolo para a todos definir.
Um anel dourado e nós giramos nele e há estrelas desenhadas para mostrar o que queremos e tememos e dominamos a arte de dar nomes ao movimento do caos.
Caros leitores, esse é o ano do Fim do Mundo.

Jacó saiu de casa para trazer comida para sua família. Beijou a mulher, as filhas, e partiu para a colheita. Haviam dois caminhos. O da direita levava para a plantação. O da esquerda, para as montanhas. Naquele dia, Jacó escolheu diferente. Depois das montanhas, diziam, havia o mar. Jacó ansiava em vê-lo, sonhava com as histórias que ouvia sobre sua brilhante e perversa extensão azul infinita. Jacó caminhou e caminhou e caminhou e só havia ao seu redor o deserto. Em desespero, chamou seu Deus.
Sozinho, sentiu medo.
Encontrou uma pedra e lhe pediu abrigo.
Por favor, Pedra, preciso de ti.
Eu não posso te esconder, respondeu a pedra.
Jacó a pegou do chão e guardou em sua sacola. E tudo mais que encontrava, tomava para si, graveto, folha, bicho, caixa, metal, papel, madeira, lã, até que não agüentasse mais o peso e jogasse tudo no chão e visse seu próprio reflexo num espelho roubado, sujo, barbudo, doente. Jacó correu. Mas as coisas que deixava pelo caminho não lhe deixavam e de todo seu corpo brotavam coisas estranhas e coisas prateadas voavam nos ares e cruzavam o chão. A terra toda tremia.
Um grande furacão negro ergue-se no horizonte sobre o campo de batalha. Jogando aos ares vivos e mortos. O homem sobe nos cadáveres e dispara sua flecha rumo ao desconhecido.
O corpo abre-se. Músculos, ossos, nervos, tecido, dando lugar ao olho de fogo.
A voz que não te conhece vende harmonia.
Cruzes vermelhas marcham no deserto. Sob elas, armaduras. Sob elas, homem, espada, cavalo, escudo, bandeira, bíblia.
Abram esse portão agora mesmo!, grita o Bispo.
A recompensa divina é paga na taverna, com todas as filhas dos fazendeiros.
Homens ferozes como bestas, senhor! Eles estão chegando.
Os elefantes anunciam.
Ornados em ouro e couro. Colares de orelhas, cabeças como coroas.
Por Alá!
E todo o inferno segue.
No deserto, um cogumelo desabrocha com a força de dez mil toneladas de dinamite.
Poder!, gritam os fiéis.
Poder!, anuncia o Pastor.
Aviões deixam uma bomba na porta de sua casa. A televisão mostra os fogos de artifício. Destruição da mais alta definição. A cruz brilha verde no monitor. Uma cidade inteira bombardeada vinte e quatro horas por dia via cabo. Algo dá errado, a loirinha com o microfone se mija. A orquestra segue. As portas se abrem e os mísseis são despejados. Fogo!, grita o Comandante. Jimmy! É sua vez! O pobre Jimmy pensa em sua fazenda no Alabama, em seu pai alcoólatra, sua mãe adúltera, sua irmã puta. Aperta a alça da mochila e salta. O páraquedas não abre. Canhões anti-aéreos são disparados no deserto e a terra estremece. Um prédio desaba com o toque de um botão. Um homem é queimado vivo. Outra bomba explode. A casa é desintegrada em câmera lenta. Metralhadoras giram. O inferno nunca se farta. O futuro é um cogumelo vermelho, diz o japonês cego. Um furacão extermina metade da costa da Flórida. Ondas gigantes varrem pessoas do mapa. Ventos levam telhados e árvores são arrancadas do chão por máquinas grandes e amarelas. Senhor!, clama Jacó. Não vê que preciso de ti, Senhor? Temos a ordem? Temos a ordem. Disparar. Vejam só isso! É lindo! As explosões continuam. Navios levam espécies para o esquecimento. Troncos empilhados, corpos contados. Esse é o Novo Mundo! Em seu seio apodrecido a mãe moribunda carrega o infante morto. Crianças africanas brincam em frente à câmera. A mais magrinha senta no canto. Ela parece realmente doente, vamos deixá-la de fora. Tendas brancas se estendem sobre a terra negra. Um homem carrega seu carrinho de mão ao lado do tanque de guerra. O relógio gira. O ponteiro conta o tempo perdido, o bolso, o vendido. O jato prepara-se para decolar. A criança com cinzas no rosto sorri para a câmera. Os navios disparam seus canhões uns contra os outros. Cuidado! Olhe atrás de você, grita a repórter desesperada, mas criança não falava sua língua. Imagens inéditas do centro de Bagdá, declarada atualmente em estado de guerra civil. Os botões mudam a voz, a mensagem é a mesma. Entre comerciais, rostos estrangeiros, amedrontados e subjugados, entretenimento de destruição em massa. Mais uma bomba explode ao lado da rua. Dessa vez eram sete os samurais da estação. Helicópteros sobrevoam o local. Um soldado tampa o ouvido. O outro cai no chão e é espancado por cinco militares fardados. A situação, responde o General, será investigada. Pausa para os comerciais. Em 1942, a Alemanha jogava bombas em Londres. Bombas caiam no Oceano Pacífico. Vendo da janela de seu B52 a nuvem de fogo engolir uma floresta inteira, Tom Hardigan surpreende-se assobiando a música tema de I’m Singing in the Rain, com Gene Kelly. Outra bomba explode errado. Cadê o Johnny? Ele estava lá dentro? Puta que pariu! Johnny aparece, em um só pé, carregando uma perna amputada nas mãos. Mas Johnny, essa perna não é a sua! A televisão cai em gargalhadas. Ainda hoje Johnny sonha que nada em um mar de mortos. A velha índia cobre o rosto em vergonha. Corpos estirados na sarjeta. Uma árvore cai. Macacos gritam enjaulados. O animal da televisão é sempre mais bonito que o seu. Milhares de árvores caem, metodicamente. Computadores supervisionam a diagramação da terra. A mata queima e o pequeno Tommy se mija por nunca ter visto nada tão bonito quanto aquilo. Campos de fumaça. Tocos negros destacando-se de seus pulmões. Mais um deserto. A foto de um macaco morto. Várias fotos de vários macacos mortos. A terra é cultivada em veneno e as mãos da modelo vendem o grão da soja. As fornalhas seguem acesas. O país registrou no último ano um índice recorde na emissão de gás carbônico. As geleiras caem, solitárias, do outro lado da televisão. A cidade encoberta em fumaça. Torres negras no horizonte. Outra geleira cai. Um outro furacão. Os ventos sacodem as paredes da casa com violência. Carros são arrastados na enchente. Carros se arrastam nas rodovias. Ciclones solitários no horizonte. Meu Deus! Você viu aquilo? A floresta inteira simplesmente desabou! A repórter sorri como uma criança. As grandes antenas viradas para o céu. O planeta gira. Em 2001, alguém joga um avião em um prédio nos Estados Unidos. O repórter é pego de surpresa. Meu Deus! Você viu aquilo? O avião bate no prédio agora de outro ângulo. Torres em chamas no horizonte. Pessoas brancas de medo e pó correm nas ruas. Pessoas caem. Mais bombas são disparadas. Outros prédios explodem. Mais pessoas caem, desmembradas, baleadas, explodidas, prisioneiras, torturadas. Em sua dança metódica, o exército treina para o desfile na garagem de tanques. Tropas no gramado. Máscaras de gás. Balas de borracha. Escudos blindados. Eles marcham. São apenas estudantes, chora o pai desconsolado. A fumaça das bombas preenche toda a praça. Um helicóptero sobrevoa. Um garoto arremessa a bomba de volta, uma garota cai no chão. Segurem ela! Rápido! Ó Senhor, dai-me forças. Me ajudem, aqui! Segurem ela! Por favor, Senhor, torne-me forte. O que ela está fazendo aqui? Tirem aquela câmera daqui! Me larguem! Cala a boca! É só um capuz preto. São todos farda preta. Está tudo bem. A arma está apontada. Vai ficar tudo bem. Por favor, Senhor! Mas a garota continua se mexendo. O Custo da Liberdade em cores bonitas diz a televisão. Faça Dinheiro agora! O Mercado essa manhã foi agitado, Thomas. Eu diria que em manhãs como essa, Colin, eu prefiro não sair da cama. Computadores diagramam nosso campo de visão. A televisão é Paris Hilton por um instante, sorrindo sua nova marca de batons sobre a cotação do dia. O Senhor fala: Criança, onde esteve quando deveria estar rezando? A televisão oferece sexo em troca de dormência a Joe Wake que morre engasgado com cachorro quente e a mão dentro das calças assistindo a um comercial de cerveja. Senhor, ouça-me rezando! A nação está em choque. Seios à venda. Poder!, clamam os fiéis. A massa de soldados marcha sob o estandarte da cruz negra. O Senhor diz: Pecador, você devia estar rezando. A nação está em guerra. Em 1944, judeus mortos e nus são empilhados em Auschwitz. Em 2006, árabes vivos e nus são empilhados em Abu Ghraib. A câmera mostra, mas ninguém mais vê, ninguém mais liga para ver desenho animado porque lá só vendem brinquedos. Você devia estar rezando, Pecador... Mais uma bomba explodiu... mas no outro canal falaram antes... outra denúncia de tortura... é possível ver ao fundo as bombas caindo... tornou-se um fenômeno, estão todos assistindo... computadores diagramam os mortos e feridos... somente uma Democracia permite essa liberdade de transmissão... o Senador vende seu voto no sorriso... as garotas dançam... e o prêmio vai para... foi vista fazendo topless em... o melhor exercício para o corpo... a pele vende a guerra... distração... a guerra paga em pele... macacos dançam... é tudo muito colorido... vai ficar tudo bem... soldados dançam... a música é bonita... vai ficar tudo bem... um carro atropela uma criança... a perseguição continua... o nome do país soletrado em uniforme marcha... o homem observa... Poder!, clama Jacó... armas em riste, bandeiras ao vento, câmeras a postos... Poder!, o deserto ecoa de volta... a segurança vende o petróleo... a confusão continua enquanto a polícia mantém a ordem... o canto de uma velha negra é ouvido... a perseguição continua... outra bomba... os policiais mantêm a multidão afastada com mangueiras... o vigia observa do alto da torre... mãos preguiçosas penduradas entre as grades... homens de terno saem pela porta dos fundos... sim, senhor, não, senhor... precisamos nos unir nesse período de medo... precisamos manter o controle... os jatos decolam... o futuro é simples... não sabe, senhor?... a simplicidade de uma maçã de plástico... os lábios vendem o veneno... não sabe que preciso de ti, senhor?... perca peso agora sem sair do sofá... viva sem culpa... a garota sorri... os computadores diagramam o rosto da televisão... rostos repetidos nas esquinas... não sabe que preciso de ti, senhor?... a televisão dança... a música ordena... cabelos ao vento em câmera lenta... o que falta em sua vida?... não vê, senhor?... todos os bonecos se vestem melhor... os botões mudam o produto, o sorriso é o mesmo... estamos à venda... o que falta para sentir-se perfeito?... a mulher geme... senhor!, clama Jacó de joelhos... uma sombra encobre o sol... recebemos um comunicado urgente... interrompemos a programação... um comunicado oficial... ignorante e implacável, a pedra rola... um grande meteorito... no escuro, Jacó chama por seu senhor... computadores diagramam o fim do mundo... ninguém mais sabe o que dizer... um pedaço de pedra atinge o planeta... a televisão chora... ninguém mais escuta... fiquem com Deus... a dança é interrompida... tudo é devastado... agora, há somente um imenso mar de fogo.
Procure o Diabo, respondeu o Senhor.
Procure o Diabo.

3 comentários:

wilson costa disse...

espero que gostem, quem ler. foi escrito em um daqueles períodos de pro inferno com tudo

abraços

wilson costa disse...

cara, terminei de ler a caos. muito boa mesmo! parabéns!

Carlos Ferreira disse...

Wilson... Valeu, hermano!