domingo, 18 de outubro de 2009

Renasce a narrativa gráfica Outubro!


Novela Gráfica para 2012 com texto e desenhos de Carlos Ferreira

Quando eu saio da minha ordinária rotina entro em um processo de introspecção. Revejo a minha vida, as minhas decisões e tomo um novo conhecimento sobre mim mesmo. Uma nova visão surge. Eu fiz escolhas e não sei se essas foram escolhas erradas, mas a verdade é, quando desejamos ter a consciência sobre o que realmente somos precisamos adentrar na floresta negra e encarar os nossos mais crueis demônios.
Sou uma pessoa difícil, desajustada e até problematática. Mas não sou uma pessoa sem noção, ou fechada, ou alienada e raza. Sou crítico e até sarcático quando necessário. Uma coisa que tomei noção sobre o meu eu é que não há outro culpado sobre as decisões incorretas a não ser eu mesmo. E vejo que eu erro muito na forma que me relaciono com o tempo.
Tá aí um projeto antigo para quadrinhos que não me deixa mentir...falo da narrativa gráfica, ou novela gráfica chamada Outubro.
Eu concebi Outubro há dezenove anos. E só hoje eu percebo que nunca deveria ter feito o que fiz com esse argumento, assim como muitos outros argumentos...O que fiz foi passar o roteiro para uma dupla de amigos e desenhistas realizarem os desenhos dessa história em quadrinhos. Na época ( e até a duas semanas atrás) eu menti para mim mesmo que essa histórias em quadrinhos seria finalizado por essa dupla dinâmica, mas temos assuntos mais urgências para resolver nessa vida mundana e o trabalho pode ficar para o pós vida. Eu cheguei aos meus 39 anos para aprender que o fluxo de energia com o meu tempo de trabalho, com alguns argumentos e roteiros possivelmente pode ir direto para o limbo, caso essa dependência (quase química) por ter fé em outros parceiros quadrinhistas não mude. Sim, aposto fichas e mais fichas há anos na realização de dezenas de textos que escrevi para os quadrinhos e o vagabundos não desenham. Apostei mais na artes de muitos do que na minha própria por pura insegurança. Eu poderia fazer uma lista de nomes aqui, mas não é o caso. A verdade é que eu pisei na bola comigo mesmo e perdi quase duas décadas nessa fila de espera. O que hoje eu vejo como postura e realização na nona arte, com um suposto mercado e atitudes por uma gama de artistas, eu já idealizava lá no início dos anos 90. Tá aí, a Peek-a-Boo (Picabu) para comprovar.
Vou ser Arrogante com "A" maíusculo, mas talvez isso sirva para você, e para você não sirva, mas diretamente essas idéias que eu tinha sobre quadrinhos autorais possa ter influenciado você indiretamente ou não. É assim que o jogo funciona. Exemplo: O autor e amigo Rafael Sica hoje é o artista que mais me influência, não só pelo seu traço mas por sua elegência autoral de pegar com as suas próprias mãos, nanquin e pincéis e produzir sem muletas o seu universo gráfico de forma tão coerente e verdadeira. Eu quero essa energia para mim.
Outra razão das parcerias nos quadrinhos é: Sou um grande apaixonado por desenho, curto muito os desenhos que os meus amigos e que os meus supostos amigos fazem. São na maioria, gênios, e quando escrevia certos textos idealizava o visual dos seus desenhos nos meus argumentos.
Não acabo aqui com todas as minhas parcerias, mas mudo o código dessas relações. Os Sertões,como exemplo, foi um parto dolorido e houve conflitos no processo de criação entre o Rodrigo Rosa e eu, mas nunca perdemos a amizade e o respeito e concluímos o livro. Não tenho nada contra a conflito criativo, acho necessário, justo quando os artistas buscam por uma boa e honesta qualidade na obra. Foi isso o que Rosa e eu buscamos com Os Sertões. Mesmo tendo claro as nossas posições autorais no livro intervimos muito no território do outro por uma busca de maturidade na obra. É possível que outros quadrinhos venham dessa parceria, quadrinhos que tenho como autoria o argumento há 20 anos, outros mais recentes, vamos ver...
Há casos, como o projeto HQ8, que a gestação de idéias e trabalho em grupo não funcionaram por ignorâcia e egos. Isso fez o meu sangue ferver e botei a boca no trambone, acho que foi bem positivo fazer isso, aqueles que eram reacionários com as minhas idéias parecem seguir o meus dogmas, mudam do formato de estúdio industrial dos quadrinhos, para idenpedentes e recentemente abandonam essa máscara para um caminho que acho honesto...o triàngulo do poder diz ser autoral. Autores industrias é muita pós modernidade para mim. Mas...
O grupo Bestiário é um grupo naturalmente estranho e isso é ótimo... Há meses nós não conseguimos nos encontrar, mas estamos conectados e logo a Picabu 5 vai nascer...
Mas agora, estou recolhendo o que é meu, o que estava no limbo, e dando um novo sopro fazendo as brasas virarem labaredas para ver o circo pegar fogo!
Pois assim como tratavam os meus textos eu seguiria para o mesmo destino filha-da-puta com outros roteiristas quando esses me contatavam e pediam para eu ilustrar os seus textos, um infernal anel de moebius. Isso também vai mudar e as chamas vão para o céu. Luz contras as trevas!

4 comentários:

Augusto Bier disse...

Teu trabalho é ducaralho. Essa crise vai te fazer bem. E fazer bem pra nós também.

Jerri Dias disse...

Como pobre roteirista sem talento para a ilustração, padeço desse sofrimento.
Se eu soubesse desenhar bem como tu, faria tudo sozinho.

Demorou!

Ethon disse...

Legal ver essa coisa emblemática dos rastros no tempo darem nós que viram sementes, esse "Outubro" que estava sendo lembrado como marco, de repende vendo que estava mais sintomático de séries de coisas que observavas até na geral, ou melhor, para as individualidades (minhas e) das tuas parcerias. Mas tem muita novidade boa aí, mesmo, passando pela reflexão da coisa mais difícil que são as pessoas se entenderem no trabalho (mais além da imaginação que o além do além...) crescendo com elas, com educação, proporcionalidades, valores, em certo sentido de objetivos. Ou afinidades, como pode(mo)s preferir. Lição afú, na geral, e particularmente para mim que chorava "projetinhos" meio espalhados. Vários dos tópicos da análise me caem como uma luva, tudo bem, a arrogância de pretender uma energia ao nível de um Sica. Será arrogância, arvorar-se a colega que tu és, a alguém que se espelha em qualidades que ele "transpira" no trabalho? Depois de ponderar fluxos de energia e dependências praticamente fisiológicas, muitas vezes, o caso me parece mais de "achado" exemplificador, de jura de um amor catalizando "antigos" conceitos a cujo equacionamento faltava o estalo de "sair da fila", mudar a linha, o "critério" de realização, sei lá, "código das relações" está bem mais perfeito (é que sigo muito palpiteiro (e buscando outros a dedo(s))). Priorização de urgências, então, nem se fala. Oxalá o mundo possamos utilizar ambições dessas (para usar um cliché cinematográfico), ainda que afetando arrogância. Inda bem que o pessoal começou a postar e eu não quis ficar de fora, "me" encorajei. A análise começara com o olhar extraordinariamente sobre o próprio percurso de vida, a relação com o tempo, num ponto a ponto que sugere um (quase?) passo a passo. Ao menos um triângulo deve dar para desenhar, e não terá sido em vão, boto Fé, se é que não queres muito mais do que isso...

Eduardo Medeiros disse...

eu acredito que tudo vêm a calhar véio, os erros, as frustrações as brigas de ego, tudo. Fico feliz que isso reflita em todos estarmos produzindo coisas boas e satisfatórias e isso só pode vir a melhorar. Gostei muito de tu ter tomado a iniciativa de fazer um projeto teu e não esperar por desenhistas e tudo mais.classe.

abração!